Ao atravessar para o tempo de outra era, tornei-me um jovem enviado ao campo no norte de Shaanxi. Água de poço amarga que não dá para acabar e batatas brotadas sem fim para comer... Há centenas de anos os camponeses já se acostumaram com isso, achando que essa é a vida... Ye Xiaochuan, porém, não concordava: ninguém nasce para sofrer; ter um pouco de carne em cada uma das três refeições, essa exigência é demais? Mas os aldeões achavam que era uma esperança irrealista. “Esperança irrealista?”, riu de canto de boca Ye Xiaochuan. “Não é só comer um pouco de carne? Que problema tem isso? Quem vier comigo e lutar junto, todo mundo vai poder comer um pão com carne…” Acredita que a gente come um e ainda mete outro no bolso?!
“Uoooooo—”
“Choc, choc... choc, choc...”
O trem verde, com sua longa cabeleira negra, cortava as vastas planícies desoladas.
Seguia sempre rumo ao oeste.
Do lado de fora da janela, o crepúsculo era profundo, o vento e a neve rodopiavam.
Era pleno inverno, e as aldeias ao redor estavam mergulhadas na melancolia.
Sem o canto dos galos, sem latido de cães, sem mulheres correndo atrás dos garotos travessos com um bastão na mão.
A pobreza deixava tudo em silêncio.
Dentro do vagão superlotado, de ar pesado e poluído, pendiam faixas vermelhas de ambos os lados dos bagageiros:
“Despedimos os jovens intelectuais de todo o país, rumo às regiões históricas de Gêmin para trabalhar no campo!”
“Sangue fervente, seguindo um chamado ardente, espalhando-se por todo o país, rumo ao vasto mundo!”
Vestindo um sobretudo verde já gasto e com a cabeça enfaixada, Ye Xiaochuan recostava-se, inerte, no assento.
Ao seu lado repousava uma edição da “Revista do Cinema Popular”.
Na capa, a personagem A Qingsao, de “A Margem da Areia”, exalava uma paixão incandescente, mas nem mesmo esse calor foi capaz de aquecer Ye Xiaochuan.
Ali estava ele, sentado, rígido.
Olhar vazio...
Expressão desolada...
Foi um velho de Shaanbei, com lenço branco na cabeça, quem quebrou o silêncio de Ye Xiaochuan.
Com humildade, o ancião ofereceu-lhe um cigarro: “Moço, pode me dar uma espremidinha? Só um espacinho, não precisa muito.”
O rosto escurecido do velho transparecia desculpas: “Passei o dia inteiro agacha